Paixão, escolhas e religião — Brasileira se converte ao Islã por vontade própria

Paixão, escolhas e religião — Brasileira se converte ao Islã por vontade própria

Paixão, escolhas e religião — Brasileira se converte ao Islã por vontade própria
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Existem pessoas que escolhem caminhos bem diferentes do que o comum, em relação às outras pessoas. Infelizmente o resultado disso é ter que viver o caos do preconceito e dos falatórios ao redor.

Ser brasileiro(a) e viver a total liberdade (ou quase total) do mundo ocidental é o que talvez muitas pessoas sonham.

O caminho da liberdade para Doha*, 25 anos, foi bem diferente. Brasileira “da gema”, quis por conta própria converter-se a religião muçulmana para sentir-se livre.

Em entrevista à Revista Marie Clarie, no ano de 2011, ela conta:

“Meu primeiro emprego foi aos 16 anos, a contragosto do meu pai — um militar machista e ciumento, que nunca deixou minha mãe trabalhar. De vez em quando me dava mesada, mas eu queria ter independência financeira e fazer uma poupancinha. Sempre fui obstinada e dedicada. Até terminar a faculdade, trabalhei e estudei ao mesmo tempo. Durante o fim da adolescência e começo da vida adulta, quase não pensava em namorar e raramente ia para a balada atrás de algum paquera porque vivia cansada de tanto estudar e trabalhar.

Conheci o meu primeiro namorado por causa de uma foto. Eu tinha 18 anos e uma amiga em comum mostrou uma fotografia minha a um rapaz chamado Amaral. Ele quis me conhecer e ela deu meu telefone. Passamos três meses conversando até criarmos coragem para marcar um encontro. Foi amor à primeira vista. Ficamos dois anos juntos e foi com ele que perdi a virgindade, aos 19. Levei o rapaz uma vez à minha casa, mas meu pai, ciumento que é, não gostou dele. Para evitar confusão, passamos dois anos nos encontrando às escondidas. Ele me deixava na esquina para meu pai não vê-lo. Estava apaixonada e sonhava em me casar, mas ele não queria se casar antes de ter um bom emprego e uma casa. O namoro esfriou e nos separamos logo que passei no vestibular para administração de empresas.

Durante a faculdade, tive poucos relacionamentos. A maioria dos garotos não queria nada sério. Isso me desanimava a paquerar.

Um ano depois de formada, tinha comprado meu apartamento, estava empregada na área de que gostava e satisfeita com a vida. Por causa do trabalho, me vi sozinha no feriado de Réveillon. Entediada, decidi ir passar a virada do ano vendo os shows na Avenida Paulista, em São Paulo, onde moro. No fundo, tinha o objetivo de encontrar um namorado naquela noite.

Encontrei um casal jovem no metrô e logo fiz amizade com eles. Durante a noite, acabei desistindo de encontrar um namorado e fiquei curtindo os shows. Quando voltávamos para o metrô, percebi que um rapaz estava me olhando. ‘Achei você muito bonita’, disse ele. Eu também tinha gostado dele e abri um sorriso. Ele se aproximou e disse que seu nome era Mohammad.

Apresentou os amigos e contou que eram todos iranianos. Eu e minha nova amiga nos olhamos e falamos baixinho: ‘São homens-bomba’. Na época, tinha todos os preconceitos comuns em relação ao mundo árabe. Mesmo assim, não resisti quando ele pediu meu telefone. Ele me ligou e marcamos um encontro em um shopping. Ficamos conversando sobre nossas vidas e descobri que ele era xiita.

Confesso que, na hora, não entendi direito o que aquilo significava. Mais tarde, fui saber que era a divisão do islã que concentra os grupos mais radicais, embora nem todos os xiitas sejam fanáticos. A família dele era do Irã e os tios moravam no Brasil. Por isso, Mohammad tinha vindo tentar a vida no país.

Nossa relação começou de forma leve e natural. Ele me falava do país dele, dos costumes, me ensinava a fazer comida iraniana, e eu ficava cada vez mais encantada com a maneira que ele via o mundo. Eu o via rezar voltado para Meca e achava a fé dele muito bonita. Foi quando comecei a estudar a cultura islâmica, sem ele saber. Queria saber tudo sobre o islã e a cultura do Irã.

mulher brasileira converte islã 2

Compreendi que, para os muçulmanos, os relacionamentos são mais sérios do que para os brasileiros. Conhecer alguém e envolver-se é algo que se faz com cuidado, diferentemente da nossa sociedade, na qual é comum flertar, ficar e, talvez, nunca mais falar com a pessoa. O sexo só aconteceu depois que fizemos um juramento. Uma espécie de ensaio para o casamento. Foi feito apenas entre nós dois, em árabe. Na época, nem sabia o que estava dizendo. Ele apenas ditou as palavras que eu teria de dizer.

Repeti porque achei que aquilo era importante para ele. Ao contrário do que muitos imaginam, os xiitas podem ter relacionamentos antes do casamento. É como se fosse um noivado, um ensaio para saber se a vida a dois vai dar certo. Os muçulmanos sunitas não podem fazer isso. Quando se envolvem com alguém, já existe a intenção de se casar.

Eu pensava em me converter, mas ao mesmo tempo não queria ser mais uma brasileira que virou muçulmana para se casar. Foram seis meses de paixão até que Mohammad passou a falar em voltar ao país dele. Fiquei com medo do choque cultural que seria morar no Irã. Apesar de admirar cada vez mais a religião muçulmana, sabia a diferença entre religião e cultura. E também que a vida das mulheres no Irã não era fácil.

Como a situação de imigrante dele não era legalizada, Mohammad acabou indo embora. Eu chorei muito, mas desde o início sabia que seria uma relação passageira. Mesmo separada dele, passei a me interessar mais pelo mundo árabe. Era como um passatempo, um hobby. Primeiro fui fazer aula de dança do ventre. Depois fiquei instigada com as músicas e decidi estudar árabe. Foi uma espécie de desintoxicação de muitos anos de renúncia a uma vida totalmente austera.

Minha conversão aconteceu aos poucos. Primeiro parei de comer carne de porco. Depois passei a estudar o Corão, o livro sagrado dos muçulmanos. Eu me identificava com a ideia de um deus único sem imagens. Também percebi a imagem distorcida que temos do Islã.

mulher isla

No Corão, está escrito que ninguém tem o direito de matar nem tirar a vida de outro. A ideia do homem-bomba, que inclusive eu tinha na cabeça, é fruto de grupos extremistas fanáticos, que colocam o nome de deus onde querem, uma minoria entre a comunidade muçulmana. Percebi que é uma religião que prega a igualdade entre os povos.

Quando finalmente me converti, decidi adotar o hijab, o tão criticado véu. Também passei a usar roupas de manga longa que não deixam meus braços de fora e respeitar a tradição do recato do Islã. Significa ter toda uma postura de se preservar, mostrar pouco o corpo e se expor menos. Passei seis meses de véu, mas ouvi tantas críticas na rua que desisti de usá-lo no dia a dia. A gota d’água foi quando fui agredida verbalmente por um médico do trabalho porque vestia o hijab durante a consulta. Ele ficou revoltado quando soube que eu era brasileira e tinha me convertido. Chegou a gritar que eu não podia praticar uma religião tão diferente da minha cultura.

mulher usando hijab 2

Lembrei do Corão, que nessas horas nos sugere manter a paz, e saí do consultório em silêncio. Até hoje fico perplexa com o número de pessoas que me perguntam por que me converti, como se eu tivesse escolhido viver em uma prisão por causa de um véu ou da forma de me vestir. Se eu fosse espírita ou evangélica ou praticasse uma religião africana, talvez fosse normal, mas vivo na pele todo o preconceito que existe contra o mundo muçulmano. Ironicamente, o insulto mais comum é o mesmo que pensei de Mohammad quando o vi: ‘mulher-bomba’.

Decidi voltar a usar o véu quando estiver mais preparada psicologicamente para lidar com essas agressões. Eu só coloco o hijab na mesquita, nos dias de oração e nas datas religiosas. Confesso que acho lindo e adoro me ver de véu. Ao contrário do que dizem, me sinto até mais bonita quando estou com a minha beleza semivelada. Mas ainda preciso preparar o meu interior para enfrentar o choque cultural de me assumir muçulmana no Brasil.

Só sei que sinto uma imensa paz interior quando rezo na mesquita, lado a lado com as outras mulheres, como manda a tradição. Penso que sou feliz. Apesar de ter sofrido um pouco no meu primeiro Ramadã, o mês de jejum onde não se pode comer nem beber nada durante o dia, estou conectada comigo mesma.

Um dia, na aula de religião, fui surpreendida por um rapaz que disse que me observava na mesquita e que queria um compromisso — o que significa o início de um casamento. Fiquei comovida, mas não entrei no Islã para encontrar marido, e só vou aceitar um casamento quanto meu coração bater por alguém. Apesar de seguir a religião muçulmana, ainda tenho minha cultura, na qual casar é por amor”.

*Todos os nomes foram trocados a pedido da entrevistada.

Fonte: Revista Marie Claire.

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