O cinema tem essa mania de embalar a vida real pra presente, filtrando a complexidade do mundo em narrativas mais digeríveis. A gente senta na poltrona e, de repente, dilemas brutais ganham contornos mais palatáveis. Mas quando você raspa a superfície de grandes sucessos, a divisão entre mocinhos, vítimas e vilões fica bem mais embaçada e interessante. Pegue dois exemplos que alugaram um triplex na cabeça do público em épocas diferentes: a jornada suada e visceral de À Procura da Felicidade e o puro suco do veneno corporativo de O Diabo Veste Prada. Nos dois casos, a telona conta uma história, mas a realidade nua e crua — ou a evolução desses personagens — joga as cartas na mesa de um jeito bem menos óbvio.
Todo mundo se emocionou lá em 2006 vendo Will Smith dar vida a Chris Gardner. A trama entrega aquela clássica volta por cima, uma dose de inspiração para quem assiste. Só que a fita original é infinitamente mais pesada do que o drama motivacional que consumimos. O buraco era muito mais embaixo. Gardner não enfrentou apenas um revés financeiro; ele encarou a miséria extrema nas ruas, o abandono e um instinto de sobrevivência que testaria a sanidade de qualquer um.
Nascido em Milwaukee, ele cresceu num ambiente completamente tóxico, dividindo o teto com um padrasto alcoólatra e violento. O negócio chegou num nível tão sufocante de desespero que a mãe dele tentou matar o marido, e o moleque acabou parando num lar adotivo. É o tipo de trauma na infância que te quebra ou te molda para a vida adulta. Depois de servir a marinha americana por uns quatro anos, Gardner foi tentar a sorte em San Francisco, lá por 1974. E sim, a parte do filme em que ele rala vendendo scanners portáteis de densidade óssea é real. Ele botou todo o seu capital nesses aparelhos médicos jurando que ia ter um retorno rápido, mas a aposta afundou bonito. O dinheiro secou, o aluguel venceu e, no ápice das dificuldades, a esposa simplesmente meteu o pé.
Aqui Hollywood dá aquela amenizada clássica na dor. Na tela, o filho que fica com Gardner é retratado como um menino de 5 anos — interpretado de forma brilhante por Jaden Smith, o que tornou a química de pai e filho incrivelmente tocante e autêntica. Na vida real, o “Chris” era um bebê de apenas 14 meses. Imagina o peso nas costas de morar na rua, sem um tostão, carregando uma criança de colo que mal sabe andar. A história verdadeira é assustadora de tão triste. O grande “vilão” ali não tinha rosto de antagonista de cinema; era a própria vida, a pobreza e a falta de perspectiva batendo sem pena.
Agora, muda o cenário. Corta da luta pela sobrevivência nas ruas para um universo onde o instinto predatório veste grife. Se no caso do Gardner o inimigo é o acaso e a miséria, no mundinho de O Diabo Veste Prada a gente passou as últimas duas décadas debatendo de onde vem a facada. Pergunta numa roda de millennials quem é o verdadeiro vilão da história e você tem briga garantida. Na superfície, a resposta óbvia sempre foi Miranda Priestly, entregue de forma antológica por Meryl Streep (e tão inspirada na Anna Wintour que ninguém mais finge qualquer distanciamento). Porém, a internet tratou de transformar em meme a tese de que os verdadeiros tóxicos da parada eram os amigos folgados da Andy e aquele namorado insuportável, o Nate.
O papo rendeu tanto que a continuação do longa parece ter sido escrita com um olho no roteiro e outro nos fóruns da internet. O Diabo Veste Prada 2 junta Andy e Miranda de novo, com a Andy assumindo a cadeira de editora de matérias especiais da Runway logo após um baita desastre de relações públicas. A grande sacada do novo filme é justamente brincar com a nossa neura de querer rotular todo mundo. Como o novo marido da Miranda, Stuart, joga no ar com muita naturalidade: “Os vilões são sempre os mais interessantes”. Mas quem segura a coroa de vilão nessa nova fase?
Pela Navalha de Ockham, a resposta mais simples costuma ser a correta. Então, olhamos para a Miranda. Ela está levemente podada por um ambiente de trabalho que hoje tolera bem menos a exploração — em um dos momentos mais geniais da trama, ela mesma pendura o próprio casaco, exausta com o esforço. Mas a língua continua afiada. Mesmo sofrendo para acertar os termos atuais (ela solta um “body negative” tentando descrever modelos que não são esqueléticas), ela começa a história torcendo abertamente pelo fracasso da ex-assistente, fingindo nem lembrar dela. Só que essa é uma versão um pouco mais branda da personagem. O veneno agora é guardado para quem realmente merece, como quando ela crava na Emily: “Você não é uma visionária, é uma vendedora”. No frigir dos ovos, a Miranda acaba apoiando a Andy e finalmente dá ao Nigel o seu tão suado momento de brilhar. Ela continua sendo o Diabo, sem dúvida, mas talvez não seja o vilão.
O que nos leva à Emily. Aquela que era a rival número um e terminou quase como amiga na obra original. Na sequência, a gata virou uma executiva de peso na Dior. A Andy tenta recrutá-la como aliada, convencendo a Emily a usar a conta bancária do seu novo namorado bilionário, Benji, para comprar a revista e barrar uma onda de demissões em massa. Por um segundo, você chega a acreditar que a Emily vai bancar a heroína. Doce ilusão. Logo as verdadeiras motivações aparecem: o ego fala mais alto, e o plano real dela é tomar a cadeira da Miranda no expediente, o que fica bem claro quando ela decide colocar o próprio rosto na capa da publicação. Puxar o tapete da Andy para apunhalar a Miranda tem uma energia de vilania altíssima. Contudo, em sua cena final, ostentando um novo cabelo loiro, o perdão entra em jogo. Depois que a compra da revista dá errado, a Emily assume que pisou feio na bola. As duas sentam, dividem uns carboidratos e a Andy perdoa a amiga com a simplicidade de quem entende que “todo mundo faz merda”. Se a própria Andy não a coloca na caixinha de vilã, não somos nós que vamos fazer isso.
E isso deixa a porta escancarada para a teoria da conspiração mais mirabolante da internet: a de que a própria Andy Sachs é a grande vilã da história, cúmplice do exato sistema que ela jura odiar. É forçar um pouco a barra, claro, mas a nova trama explora exatamente essa dualidade. A Andy volta para a Runway sabendo perfeitamente o vespeiro em que está se metendo. Ela mudou muito, está mais focada em fazer um jornalismo que importe e tentar salvar a profissão dentro de uma indústria que parece estar indo pelo ralo.
No fim das contas, seja tentando não sucumbir à miséria nas calçadas frias de San Francisco ou tentando não perder a própria essência no meio de uma redação de moda altamente predatória, a ficção esbarra na vida real. Histórias de superação e dramas corporativos prendem a nossa atenção justamente porque mostram que a vida não vem com um roteiro preto no branco. Às vezes, o vilão é um sistema econômico implacável, às vezes é o seu chefe, e, de vez em quando, é a sua própria ambição tentando se disfarçar de boas intenções.